22 de novembro de 2015

The Grownup


Autor:
Gillian Flynn
Género:
Conto
Idioma: Inglês

Páginas: 66
Editora:
Weidenfeld & Nicolson (Kindle edition)
Ano:
2015

ISBN:
 
080-4188971
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Enquanto a super-talentosa Gillian Flynn (Em Parte Incerta; Objectos Cortantes; Lugares Escuros) não publica outro romance, é deitar a mão ao que aparece.
 

Assim, quando os queridos da Amazon.com me avisaram que estava disponível uma short story a ser publicada em Novembro, pré-reservei e fui-me entretendo com outras coisas até chegar o dia. 

The Grownup, sendo recente, não é novo, tendo sido publicado inicialmente numa antologia de contos editada por George R. R. Martin (gente talentosa frequenta os mesmos círculos, está visto) intitulada Rogues. Ganhou o Edgar Award sob o título de What Do You Do? e foi reeditado há semanas com este novo título, nenhum deles genial, diga-se.

A história segue uma jovem mulher que desde cedo se habituou a manipular para sobreviver, incitada pela mãe como sustento de ambas. Já adulta, quando responde a um anúncio de recepcionista e percebe que é para ser prostituta num quarto dos fundos a estimular manualmente os clientes que aparecem, aceita. Mas é tão solicitada (ou o trabalho é tanto) que quando é diagnosticada com síndrome do canal cárpico, a patroa/madame lhe propõe um trabalho na actividade que serve de fachada ao negócio: a vidência.

“I didn’t stop giving hand jobs because I wasn’t good at it. I stopped giving hand jobs because I was the best at it.”

Assim, vai acumulando funções, continuando a receber homens no quarto dos fundos e a atender senhoras a quem "orienta espiritualmente", servindo-se da habilidade em ler expressões faciais e aproveitando-se do desespero (e ingenuidade) alheio.

Quando Susan vem pedir ajuda, é apenas mais uma cliente, mas as coisas evoluem ao ponto da protagonista começar a acreditar que algo se passa na casa dela (e começa a preocupar-se com o seu bem-estar), incluindo a hipótese de que o enteado está possuído por um espírito maléfico. Como em todos os livros da autora, é de esperar vilania e comportamentos desviantes, o ser humano no seu melhor.

Apesar das sessenta e poucas páginas, a autora faz um excelente trabalho no desenvolvimento das personagens, mas não há tempo para explorar devidamente a história (promissora).

Apesar de ser um conto acima da média,
The Grownup é curto e sabe a pouco, com um final abrupto pouco saciante. É um conto bem trabalhado e nota-se a mestria de Flynn, mas é o que é: limitado. 

***
(mediano/razoável)

20 de outubro de 2015

Wayward Pines - Caos (Wayward Pines #3)


Autor:
Blake Crouch
Género:
Thriller
Idioma: Português

Páginas: 352
Editora:
Suma de Letras

Ano:
2015

ISBN:
978-989-87755559
Título original: The last town (Wayward Pines Trilogy, Book 3)
 
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Este livro encerra a trilogia de Wayward Pines. 

Não costumo ler ficção científica mas gostei bastante da história e da acção. Este terceiro livro tem mais cenas de violência do que os outros dois mas temos os habitantes de Wayward Pines num cenário diferente, a lutar pela sua sobrevivência e a tentar assegurar a segurança da cidade, completamente à mercê da ameaça exterior.

Quando comecei a ler os livros, estava longe de imaginar o que escondia o desaparecimento de dois colegas que o agente secreto Ethan Burke investigava e o levara à pacata Wayward Pines, onde nada senão o silêncio e alguma hostilidade dos locais o esperavam.  Muitas reviravoltas depois, o desfecho é inesperado e foi uma leitura de que gostei bastante, numa mistura de thriller com ficção científica que não costumo ler mas que foi uma agradável surpresa.

Fiquei curiosa em saber a possível continuação da história. Este terceiro livro fecha a trilogia mas a narrativa deixa em aberto a possibilidade de uma continuação.

No entanto, o autor já disse no seu site que é improvável um quarto livro; como estas coisas ficam sempre em aberto e a adaptação a televisão correu bem, não me admiraria que houvesse uma continuação da história, mesmo que só em televisão; há certamente material para isso. 


Recomendo a trilogia, se possível com o menor conhecimento prévio possível, para desfrutar melhor das revelações.  

****
(bom)

6 de outubro de 2015

Wayward Pines - Revolta (Wayward Pines #2)


Autor:
Blake Crouch
Género:
Thriller
Idioma: Português

Páginas: 362
Editora:
Suma de Letras

Ano:
2015

ISBN:
978-989-87755405
Título original: Wayward (Wayward Pines Trilogy, Book 2)
 
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Wayward Pines é, vista de fora, a cidade de sonho: pacata, bonita, limpa, com habitantes simpáticos e sem crime.
 

Para que servem então a vedação electrificada e o arame farpado, as inúmeras câmaras e microfones? Pouco depois de chegar, o agente secreto Ethan Burke sofreu um violento acidente de viação. Ao acordar, tentou sair da cidade sem sucesso. Reunido entretanto com a sua família e a morar em Wayward Pines, Burke, recém-nomeado xerife da cidade, parece ter abraçado a nova vida e ter esquecido o que o levou ali.

Mas a cidade e o seu modo de vida estão na base de um segredo terrível e nem todos os habitantes estão preparados para ouvir a verdade. Burke é um dos poucos que a conhece e está dividido entre contar a verdade ou manter a farsa para o bem comum. É um dilema que atormenta o xerife e a morte violenta de um habitante vem precipitar os acontecimentos.

Este segundo livro explora melhor as dinâmicas da cidade e traz à luz alguns aspectos da vida de algumas personagens centrais. É uma boa sequela que mantém o interesse na história e deixa adivinhar algumas reviravoltas futuras bem suculentas, que garantem uma leitura a bom ritmo.
 
Vi a série, entretanto, e para não variar, o livro é melhor, mas isso em nada diminui o facto de esta trilogia ser uma das surpresas literárias do ano: original, emocionante e garante de horas bem passadas. É indispensável começar a lê-la sem saber o que realmente se passa em Pines, por isso resistam à leitura dos spoilers. 

****
(bom)

13 de setembro de 2015

Wayward Pines - Paraíso (Wayward Pines #1)


Autor:
Blake Crouch
Género:
Thriller
Idioma: Português

Páginas: 336
Editora:
Suma de Letras

Ano:
2015

ISBN:
978-989-8775368
Título original: Pines (Wayward Pines Trilogy, Book 1)
 
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O agente secreto Ethan Burke chega a Wayward Pines com uma missão bem definida: encontrar dois agentes federais que desapareceram há dois meses na pacata localidade cercada por montanhas.
 

Pouco depois de chegar, Burke sofre um violento acidente de viação e acorda no hospital, desorientado, com dores, sem telemóvel e sem carteira. Ao explorar a cidade, tem dificuldades em prosseguir a investigação: todos duvidam da sua identidade, o xerife não colabora, o seu superior não atende os seus telefonemas, as pessoas parecem esconder qualquer coisa. E qual é a finalidade do muro electrificado que cerca a cidade?

Estava curiosa em ler o livro porque já está disponível a série e queria ler antes de a ver. Wayward Pines - Paraíso é bom como livro de mistério e thriller porque mantém o leitor em suspenso e tem um final provocador.

Tem vários pormenores que poderiam ter sido melhor trabalhados (e que prefiro não mencionar para não estragar a surpresa de quem ainda não leu) mas não deixa de ser um livro que cativa. Pessoalmente, achei o personagem principal interessante e estive sempre curiosa em saber o que aconteceria e o que escondia a pacatez de Wayward Pines, afinal. 

Faz lembrar o filme Stepford Wives, onde tanta perfeição se estranha e onde a fachada imaculada dá sempre lugar a uma verdade tenebrosa. Todo o ambiente da cidade é bem trabalhado e foram horas envolventes perdida em Pines com o agente Burke para perceber o que se passava, o que se escondia por detrás da calma e dos sorrisos dos habitantes, a imaginar vários outros cenários que não o que o autor escreveu.
Não é o melhor livro que já li mas é extremamente cativante e aguça a curiosidade para o seguinte. Vi a série, entretanto, e para não variar, o livro é melhor. 

****
(bom)

6 de setembro de 2015

A gata do Dalai Lama


Autor:
David Michie
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 224
Editora:
Nascente

Ano:
2014

ISBN:
978-989-6682910
Título original: The Dalai Lama's cat
 
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Uma gatinha é resgatada da morte nas ruas impiedosas de Nova Deli por Sua Santidade, o Dalai Lama, e torna-se a sua companheira favorita. Enlevada pela sua sorte e tocada pela insustentável leveza do dono, a pequena bodhigatava decide contar a sua história.

«- Oh! Que amorosa! Não sabia que tinha uma gata! - exclamou.
Fico sempre surpreendida com a quantidade de pessoas que fazem esta observação. Porque é que Sua Santidade não haveria de ter uma gata?
- Se ao menos ela soubesse falar -continuou - De certeza que teria grande sabedoria para partilhar.
E daqui nasceu a ideia.... Comecei a pensar que talvez tivesse chegado a hora de escrever o meu próprio livro, que transmitisse a sabedoria que adquiri sentada, não aos pés do Dalai Lama, mas ao seu colo.»

Num mosteiro com vista deslumbrante sobre os picos nevados dos Himalaias, num lugar privilegiado nos aposentos do Dalai Lama, a gata testemunha encontros com estrelas de Hollywood, mestres budistas, rainhas, gurus, filantropos e muitas outras pessoas que procuram os conselhos do Dalai Lama. Paralelamente, aprende a olhar em volta e para dentro de si. A sua apreensão do mundo é relatado num tom irreverente e sábio, proporcionando ensinamentos sobre como encontrar a felicidade e o significado da vida num mundo tão intenso e materialista, onde a doutrina budista brilha de um modo simples e despretensioso.

Este é um livro delicioso, com pequenos episódios inspiradores. Apercebi-me assim que o comecei a ler. Tive de me conter para não o ler de uma assentada; não sei se por focar temas universais se por ter vindo na altura oportuna (ou se ambos), mas o conteúdo tem mensagens que urgem ser degustadas com vagar. O tom leve em que tudo é dito é enganador e como nunca tinha lido focado na filosofia budista, embora tivesse um conhecimento superficial, quase tudo foi um ensinamento.
 
O livro pode ser lido sem qualquer apego religioso e mesmo assim ser apreciado, pois defende o auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal, útil a todos. Como livro de auto-ajuda, indica um caminho para outra perspectiva. Pode ainda ser lido como um romance inspiracional sobre um gato cheio de charme. Seja qual for o ângulo, é uma leitura compensadora.

A gata do Dalai Lama foi inspirado na gata do autor, que o acompanhava na meditação e nas aulas sobre budismo tibetano; morreu antes de o autor terminar o livro, mas David Michie diz que continua a ser a sua musa inspiradora.

Podem ler um excerto do livro aqui

*****
(muito bom)

23 de agosto de 2015

Por que engordamos - e o que fazer para evitar


Autor:
Gary Taubes
Género:
Saúde
Idioma: Português
Páginas: 288
Editora:
L&PM (Brasil)

Ano:
2014

ISBN:
978-852-5431493
Tradução: Janaína Marcoantonio
Título original: Why we get fat - and what to do about it
 
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Com tanta informação sobre alimentação todos os dias (via Facebook, nos jornais, nas revistas, em conversas com colegas e amigos), decidi ler algo mais aprofundado sobre nutrição, de preferência um livro para o consumidor comum, porque os estudos científicos não são fáceis de assimilar para uma leiga.

Quando chegou a altura de o escolher, foi incrível ver a quantidade disponível, as várias ideologias e a diversidade de autores, de celebridades a profissionais de saúde (cardiologistas, endocrinologistas, médicos de família), passando por preparadores físicos e bloggers.

Por que engordamos - e o que fazer para evitar é um best-seller que se destacou dos outros, não só porque reconheci o nome do autor de dois documentários que já vi sobre alimentação mas também porque tinha excelentes críticas. Na realidade, os argumentos de Taubes têm tantos apoiantes como opositores, mas o seu sucesso deve-se: 1) à citação de inúmeros estudos e testemunhos especializados (de cientistas e médicos) a que o autor recorre para fundamentar as suas conclusões e desmontar alguns dos maiores mitos sobre nutrição e emagrecimento; e 2) ao uso de uma linguagem simples e corrente e de exemplos concretos.
 
Não engordamos porque comemos demais. Comemos demais porque engordamos.
 
Taubes pega nos paradigmas tradicionais e deita-os por terra, um a um, recorrendo a estudos e índices científicos, às leis da termodinâmica e à lógica. A dieta e as mudanças defendidas (consumo elevado de proteína e gordura animal, eliminação de alimentos processados, açúcares e farináceos) não são novidade e têm muitos aderentes faz muitos anos, mas o livro tem o condão de nos fazer pensar e questionar, seja qual for a nossa orientação alimentar (vegan, crudívoro, carnívoro, etc.).

O autor organiza o livro de forma clara, mas Por que engordamos - e o que fazer para evitar é repetitivo; as ideias-chave são repetidas e fundamentadas através de diferentes argumentos e exemplos capítulo após capítulo. Este é o ponto menos positivo.

Apesar da capa sensacionalista, é um bom livro, com um encadeamento claro de ideias. Uma leitura interessante sobre um tema que está sempre na ordem do dia.

Gary Taubes nasceu em Nova Iorque, em 1956, e é colaborador da revista Science. Estudou Física Aplicada em Harvard, Engenharia Aeroespacial em Stanford e é jornalista pela Universidade de Columbia. Recebeu três vezes o prémio Science in Society Journalism Award da National Association of Science Writers, sendo o único jornalista a obter tal reconhecimento.

 

****
(bom)

1 de agosto de 2015

Quando éramos mentirosos


Autor:
E. Lockhart
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 312
Editora:
Asa

Ano:
2014

ISBN:
978-989-23273656
Tradução: Elsa Vieira
Título original: We were liars
 
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Éramos mentirosos é uma história contada na primeira pessoa por Cadence Sinclair Eastman, a herdeira da família Sinclair, que nos brinda com o relato de uma adolescência financeiramente desafogada e povoada de sonhos e primeiras experiências, saboreada ao máximo nas longas férias de Verão com primos e amigos, na ilha privada da família.

Bem vindo à bela família Sinclair.
Ninguém é criminoso.
Ninguém é viciado em nada.
Ninguém é um fracasso
.
 

Cadence faz parte dos Mentirosos, juntamente com os primos Johnny e Mirren e um amigo, Gat. Com idades semelhantes, são inseparáveis nas férias de Verão, que passam na ilha todos os anos. Cúmplices, partilham os testemunhos e palpitações típicos da idade, gozando os privilégios que a riqueza familiar concede.

No Verão 17 (em que Cadence tem 17 anos), e após alguns anos do divórcio dos pais e muitas discussões familiares, com a morte da avó pelo meio, a jovem sente-se confusa e debilitada, e aproveita o regresso à ilha para se reencontrar, tentando lembrar-se do que terá acontecido para ficar assim, quando o seu pensamento era claro e a sua memória confiável, antes dos anti-depressivos e outros inibidores. O clima familiar não ajuda, com a mãe de Cadence e as duas tias a discutirem constantemente sobre dinheiro e a partilha do património da mãe (a avó de Cadence), espevitadas pelo patriarca.

O livro não é previsível mas percebi a reviravolta antes de chegar a metade da história. E isto apenas porque o que me fez lê-lo (os alertas na capa para "mentir" sobre o desfecho do livro, que me aguçou a curiosidade) me pôs a conjecturar sobre o que seria o mistério e lá cheguei à conclusão que só poderia ser um par de coisas... e era uma delas, efectivamente.

Éramos mentirosos foi escrito com cuidado (nota-se), tem passagens bonitas, poéticas até, e há credibilidade, ainda que estereotipada, na descrição de uma aristocracia decadente. Porém, é claramente dirigido a um público juvenil e esqueci-me disso. Talvez há uma década, tivesse apreciado mais a história, mas como já não é assim, fiquei-me pelo satisfeita e doei o livro à biblioteca municipal, para que alguém possa desfrutar mais da sua leitura. 

***
(mediano/razoável)

25 de julho de 2015

O último dia de um condenado


Autor:
Victor Hugo
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 95
Editora:
Quidnovi

Ano:
2010

ISBN:
978-989-5547456
Tradução: Ana Ribeiro
Título original: Le dernier jour d'un condamné
 
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O último dia de um condenado é um pequeno livro com uma enorme mensagem.

Com menos de cem páginas, esta short novel publicada em 1829 é o relato, na primeira pessoa, de um homem condenado à guilhotina que confessa os seus pensamentos, sentimentos e receios à medida que o momento da execução se aproxima.

Porque tive medo? A porta do túmulo não se abre pelo lado de dentro. 

Não sabemos o seu nome nem o crime que terá cometido (há indícios subtis de que possa ter sido um homicídio) mas cedo começamos a visualizar o que o rodeia, desde as paredes que constituem a pequena cela onde passa os seus dias às personalidades dos prisioneiros e dos carcereiros com quem convive.

O tom do livro é, como esperado, deprimente. Lê-lo no Verão, num dia luminoso, numa esplanada ou na praia, em nada altera o negro dos dias do nosso narrador, que passa da contemplação da beleza das pequenas coisas (a luz do sol, uma flor) à penumbra do grotesco.

Ah! Como uma prisão é alguma coisa de infame! Há aí um veneno que corrompe tudo. Tudo se envilece, até mesmo uma canção duma donzela de quinze anos! Se aí encontrardes uma ave, vê-la-eis com lama nas asas: apanhais uma flor, aspirá-la-eis e ela tem um mau cheiro.

Uma leitura universal e actual - a pena de morte ainda vigora em 57 países -, numa época tão distante (felizmente) da nossa realidade europeia, onde os direitos básicos do ser humano não estão limitados a um grupo étnico ou religioso em concreto.  

Um texto poderoso da clara oposição de Victor Hugo à pena capital. 

****
(bom)

12 de julho de 2015

Ele está de volta


Autor:
Timur Vermes
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 304
Editora:
Lua de Papel

Ano:
2013

ISBN:
978-989-2324074
Tradução: João Henriques
Título original: Er ist wieder da 
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Berlim, 2011.

Adolf Hitler acorda num terreno baldio. Dói-lhe a cabeça e o uniforme tresanda a querosene. Olha à sua volta e não encontra qualquer cara familiar; a cidade também está bastante diferente. Não tem tempo a perder e rapidamente tenta apreender a nova realidade, ao mesmo tempo que planeia o seu regresso ao poder.


Assim começa o primeiro romance de Timur Vermes - um escritor alemão de origem húngara -, um bestseller traduzido em 35 línguas.

Narrado na primeira pessoa pelo próprio Adolf Hitler, assistimos ao renascer de uma figura icónica. Na sociedade actual, entupida por reality shows e pelo YouTube, o renascido Führer é visto como uma estrela da comédia, que uma televisão sequiosa de novidades acolhe de braços abertos. A Alemanha da crise, do Euro ameaçado, da austeridade, vê nele um palhaço inofensivo. Mas ele é real e fala com convicção, o público é que encara tudo como uma paródia. Assim, passo a passo, Hitler planeia o seu regresso ao poder – por via da televisão e das «internetes» -, e rapidamente se torna uma figura de destaque. 

Ele está de volta é uma sátira acutilante a uma sociedade mediatizada. Tem momentos bastante bons, alternados com outros menos conseguidos. Tem várias referências que me passaram ao lado, por não conhecer Berlim e por não estar familiarizada com o universo cultural e televisivo alemães, algo inevitável para quem não é alemão ou não vive(u) na Alemanha. Mas o tom de Hiltler é assustadoramente normal, os seus pensamentos são uma mescla de lógica e fanatismo e é arrepiante ver como as massas sucumbem àquilo que pensam ser um actor que vive intensamente a personagem.

A situação era bastante paradoxal: ainda anteontem eu tinha movimentado o 12.º Exército e agora estava a movimentar prateleiras. 

A meio do livro, o autor conseguiu um feito de relevo: começamos a gostar deste Hitler do YouTube, da sua rectidão e frontalidade, da rapidez com que se adapta a um mundo novo e a forma como deseja que o seu país seja autónomo e bem sucedido economicamente (não é o que todos desejamos para o nosso próprio país?). Claro que Timur Vermes manobra tudo para que assim seja, moldando acontecimentos e situações (adoro quando Hitler é sovado selvaticamente por membros da extrema-direita) mas dá que pensar.

No meu tempo nós levámos o terror às ruas (...) As SA andavam a circular nas suas carrinhas de caixa aberta, a agitar bandeiras e a partir ossos. Bandeiras! Isso é de extrema importância! Porque quando um atrasado mental bolchevique estiver com a cara toda ligada e de cadeira de rodas, precisa de saber quem é que o espancou e porquê.

Eu gostei do livro, da frescura da história e da crítica social mordaz. De destacar ainda a capa, com um design bastante original.  

Está disponível um excerto aqui

****
(bom)

22 de junho de 2015

Laços de Família

Autor: Marilynne Robinson
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 232
Editora:
Difel

Ano:
2007

ISBN:
978-972-2908511
Tradução: Isabel Veríssimo
Título original: Housekeeping 
---

Lançado em 1981, Laços de Família foi considerado uma pérola rara. Nomeado para o Pullitzer (nesse ano, ganhou Coelho Enriquece, de John Updike), ficou-se pelo PEN/Hemingway Award e deixou a autora, Marilynne Robinson, debaixo de olho (curiosamente,  Robinson apenas publicaria o segundo romance, Gilead, 24 anos depois, em 2004).

Anos 50. Ruthie (a narradora) e a irmã, Lucille, são levadas pela mãe (uma mulher solitária e calada) a uma pequena cidade do Idaho, Fingerbone, onde vive a avó materna. Entregues as meninas, a mãe afasta-se de prego a fundo em direcção ao lago da cidade, suicidando-se na mesma massa de água onde o seu pai se afogara anos antes.

As duas crianças ficam entregues a uma avó inexpressiva, passando para duas tias "taralhocas" com a morte daquela e finalmente para outra tia (excêntrica até ao tutano) quando as duas solteironas decidem que criar duas crianças dá demasiado trabalho.

Rapidamente nos apercebemos que a família é atormentada pela doença mental, o suicídio e a inquietude. A autora é mestra em envolver-nos na vida doméstica e no crescimento das crianças, mas há toda uma atmosfera estranha que não torna a história credível (os actos das personagens não fazem grande sentido e a indiferença dos habitantes de Fingerbone é absurda). Há muitas respostas que ficam por dar, as personagens masculinas são irrelevantes e as mulheres da história pautam-se por uma passividade aflitiva.

Há três palavras que, para mim, resumem a história e o ambiente de Laços de Família: sublime, entediante e melancólico.
A história tem momentos evocativos e de grande beleza poética, escritos com uma elegância que se reconhece rara, mas a repetição de alguns cenários torna-se maçadora ao ponto de querermos que desate. Quanto à melancolia, é ambivalente, pois dá uma riqueza ao texto que acaba por aborrecer quando a história não avança. Ainda agora, depois de ter repensado os capítulos/as cenas mais relevantes, não consigo ver a apregoada genialidade deste livro; não foi nada gratificante seguir a infância e adolescência de Ruthie e Lucille.
 
Perdeu-se ainda algo na tradução do título: Housekeeping converteu-se em Laços de Família, quebrando o elo com a história e a forma como cada personagem é afectada pela atenção (excessiva ou falta dela) aos cuidados domésticos e à lida da casa.
 
Acredito que o livro seja superior à percepção que tive dele, mas só posso comentar aquilo que me fez sentir, num deambular demasiado longo que uma edição mais apurada teria resolvido.
 
Não vou desistir do que me trouxe ao nome da autora: a leitura de Gilead, considerada a sua melhor obra. Comecei por este romance porque foi o primeiro e queria lê-los por ordem cronológica, mas não tão cedo; cada vez que penso em Laços de Família, apetece-me bocejar.

***
(mediano/razoável)
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