19 de janeiro de 2014

Sopro do mal



Autor: Donato Carrisi
Género:
Policial
Idioma: Português

Páginas: 448
Editora:
Porto Editora
ISBN:  978-972-004278-1
Título original: Il suggeritore
Tradução: Joana Fabião
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Gosto bastante de policiais e já li muitos, de qualidade variável entre si. Não discrimino autores: ingleses, americanos, portugueses, suecos, espanhóis, leio o que me pareça interessante.

Desta vez, li o primeiro livro daquele que é considerado «um escritor tão bom como os grandes mestres do thriller americano», Sopro do mal, do italiano Donato Carrisi, que arrebatou vários prémios em Itália.

Deus é silencioso, o Diabo sussurra...

A protagonista é Mila Vasquez, uma investigadora especialista em descobrir crianças desaparecidas, que é chamada a colaborar com uma experiente equipa, que investiga um complexo caso de cinco raparigas desaparecidas. Os corpos não foram descobertos, apenas os braços esquerdos de cada uma delas, enterrados num local isolado. Mas há um sexto braço, de uma jovem por identificar, uma vítima que ainda poderá estar viva e que urge salvar o mais depressa possível. 
 
E assim começa um carrossel criminal de mais de quatrocentas páginas, com muitas voltas e (algumas) revelações de pasmar. A liderar a equipa está o carismático criminologista Goran Gavila, que dispõe de um grupo de investigação soberbo que luta contra o tempo e contra um adversário com uma mente com tanto de brilhante como de diabólica.

O início do livro é arrebatador e rapidamente nos envolve. Dá gosto perceber uma história imprevisível e original q.b., com personagens complexas e muito interessantes. Mesmo quando, por vezes, Mila Vasquez se torna pouco empática, de tão invulgar que é, há outras personagens que dão sal à narrativa.

Sopro do mal (excerto aqui) é uma estreia promissora (o escritor já escreveu mais dois livros entretanto, embora só um deles esteja editado em português, O Tribunal das Almas), um livro de tirar o fôlego e viciante mas que não é perfeito.

Em primeiro lugar, o livro não tem uma localização precisa (nem é revelada), mas presumo que seja Itália, embora algumas descrições não apontem sempre para isso, como as referências a pubs (tipicamente inglesa) e a hierarquia dos detectives (não é a usada na Itália). Em segundo lugar, a mistura de nomes germânicos, americanos e espanhóis também não ajuda a imaginar as personagens com muito detalhe. Talvez o autor procurasse dar um aspecto de universalidade ao livro, mas as técnicas de investigação diferem de país para país e se Donato Carrisi é especialista em Criminologia e Ciências do Comportamento, era de esperar que se focasse na italian kind of way.

A compensar isso, temos cenas grotescas, muito mistério e intriga, em cenários tão diferentes como um antigo orfanato, uma urbanização luxuosa e a mansão de um multimilionário às portas da morte. As revelações são inteligentes e aparecem na altura certa, abrindo o apetite para o que se segue. A atmosfera do livro é hipnotizante.

Sopro do mal é muito bom e Donato Carrisi é um autor a reter.

*****
(muito bom)

13 de janeiro de 2014

A balada do café triste



Autor: Carson McCullers
Género:
Literatura Americana
Idioma: Português

Páginas: 80
Editora:
Editorial Presença

Colecção: Obras Literárias Escolhidas
ISBN:  978-97-2414356-9
Título original: The ballad of the sad cafe
Tradução: José Guardado Moreira
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Carson McCullers é um dos expoentes máximos do género literário southern gothic, caracterizado por histórias que se passam sempre nos estados americanos mais a sul do território, com personagens de carácter duvidoso em cenários pobres e violentos.

Publicado em 1951, A balada do café triste é uma das obras maiores da autora, falecida aos 50 anos de idade, em 1967. Conta a história de Miss Amélia Evans, uma mulher dura e seca, a mais rica da pequena povoação onde vive, Forks Falls, famosa por ser implacável nos negócios e trabalhar sem descanso.


Miss Amélia é grande de porte e masculina de modos, não dá confiança a ninguém. Todos lidam com ela o mínimo necessário mas respeitam-na: tem a única mercearia num raio de quilómetros, conhecimentos de medicina (os habitantes entregam-se aos seus cuidados sem hesitar) e destila o melhor álcool da região.

«O álcool de Miss Amélia é uma coisa à parte. É puro e queima na língua, mas, quando desce, faz efeito durante muito tempo. Mas não é tudo. É sabido que, se uma mensagem é escrita com sumo de limão numa folha de papel branco, não se vê. Mas se o papel for aproximado do fogo, então as letras aparecem castanhas e o significado torna-se claro. Imagine-se que o whisky é o fogo, que a mensagem apenas é conhecida pela alma do próprio - é assim que o valor do álcool de Miss Amélia pode ser avaliado.» 

Miss Amélia casou-se uma única vez, com o homem mais bonito e sem escrúpulos de Forks, Marvin Macy, que tenta seduzi-la sem sucesso (o casamento dura 10 dias). Ela expulsa-o de casa e Macy deixa a povoação jurando vingança.

A vida decorre sem sobressaltos e as pessoas vivem para o trabalho e pouco mais. Até que um dia, um anão corcunda, Lymon Willis, aparece na rua principal e à porta de Amélia, trazendo uma fotografia amarelada e alegando ser um parente. Para espanto geral, a mulher acolhe-o e, juntos, transformam a mercearia num café, um estabelecimento que vai trazer outra vida e cor a Forks Falls, reunindo famílias e forasteiros. Os anos passam e Amélia parece outra, feliz e mais feminina (diz-se que pelo amor que nutre pelo anão). 
  
«As pessoas da terra sentiam (...) orgulho ao sentarem-se no café. Lavavam-se e limpavam as solas das botas antes de entrarem. Aí, pelo menos durante algum tempo, o amargo sentimento de não se valer nada neste mundo quase desaparecia.»
Os anos passam ligeiros, até ao dia em que Marvin Macy aparece no bar, decidido a arruinar a vida da ex-mulher. O que se segue é um confronto surpreendente, assente num triângulo amoroso onde ninguém é correspondido e que vai mudar, para sempre e de uma forma trágica, a vida de todos.

A balada do café triste (excerto aqui) é uma história atmosférica e cheia de folclore, onde não falta melancolia. Carson McCullers escreve sobre a solidão e a exclusão de uma forma poética e real. As suas personagens são marcantes e estão longe de ser heróicas, mas torna-se apaixonante seguir-lhes o percurso.

Este pequeno livro é uma boa introdução ao seu trabalho. Fiquei cativada e planeio ler a sua obra maior, O coração é um caçador solitário, assim que possível.

****
(bom)

8 de janeiro de 2014

As investigações de Poirot


Autor: Agatha Christie
Género:
Contos/Policial
Idioma: Português

Páginas: 176
Editora:
Edições ASA

Colecção: Obras de Agatha Christie
ISBN:  978-97-2414356-9
Título original: Poirot investigates
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Sou uma fã de Agatha Christie desde a adolescência. O belga Hercule Poirot, com as suas fantásticas «célulazinhas cinzentas», é o meu detective favorito e crescer a ler os seus casos (e os insultos velados q.b. ao Hastings) sempre foi um deleite.

Este ano, a minha segunda leitura foi um retorno à Dama do Crime, com est'As investigações de Poirot, 11 contos com Poirot e Hastings como protagonistas. Escrito em 1924, foi um dos primeiros livros de Christie.

Há variedade no tipo de crimes, não há apenas homicídios: raptos, roubos, espionagem; em todos eles, a inteligência do hercúleo detective é procurada por alguém, os factos são apurados, ele senta-se a analisar e, et bien, tira a solução da cartola em menos de nada. 

Esta dinâmica resulta melhor em alguns contos do que em outros, sendo que alguns são demasiado breves para atingir a qualidade potencial e outros parecem demasiado complexos para uma solução tão rápida.

No global, é um livro razoável mas longe da genialidade costumeira, que pode ser comprovada em livros mais longos. Além disso, prefiro os contos de Christie sem Poirot, ele brilha é nos romances, onde a sua genialidade pode ser atestada em pleno.

Segue a lista dos contos. Destaquei os meus favoritos, a saber:

1- A aventura de «A Estrela Ocidental»
2- A tragédia de Marsdon Manor
3- A aventura do apartamento barato
4- O mistério do pavilhão de caça
5- O roubo das obrigações de um milhão de dólares
6- A aventura do túmulo egípcio
7- O roubo de jóias no Grand Metropolitan
8- O rapto do primeiro-ministro
9- O desaparecimento de Mr. Davenheim
10- A aventura do aristocrata italiano
11- O caso do testamento desaparecido


*** 
(razoável/mediano)

3 de janeiro de 2014

O violino de Auschwitz





Autor: Maria Àngels Anglada
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 144
Editora:
Dom Quixote
ISBN:  978-97-2204487-5
Título original: El violí d'Auschwitz
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Não costumo ler livros sobre o Holocausto. Já vi vários filmes e documentários, mas livros só me lembro do Diário de Anne Frank, lido há muitos anos atrás.

Deparei-me com O violino de Auschwitz há uns dias e não reconheci o nome da autora. Maria Àngels Anglada (1930-1999) foi uma romancista e poeta catalã, galardoada com vários prémios, e este é um dos seus romances mais famosos.

O livro segue a provação de Daniel, um jovem construtor de violinos (ou luthier) preso num campo de concentração, e o seu dia-a-dia rodeado de violência e ódio. Originalmente, Daniel faz todo o tipo de trabalhos que os guardas do campo (imprevisíveis na sua crueldade) lhe mandam fazer, mas uma noite, o comandante do campo - «uma besta sádica» que aprecia música -, encomenda-lhe a construção de um violino que rivalize com um Stradivarius.

Daniel vê uma oportunidade de escape mental, dedicando-se de corpo (faminto) e alma (exausta) à tarefa, vindo a descobrir mais tarde que a sua morte prematura depende de uma aposta feita acerca da sua habilidade: se conseguir construir um violino extraordinário, vive; senão, será entregue ao "médico" do campo para experiências, à semelhança de muitos outros prisioneiros, a grande maioria falecidos em grande agonia.

O livro peca por ser demasiado breve e, assim, não permitir ir mais além no conhecimento e apego às personagens, mas tem frases sublimes (aqui reconhece-se a poetisa na autora) e a alternância, em analepse, dos capítulos da vida no campo com a actualidade, está muito bem conseguida.

Os capítulos iniciam-se com passagens reais de relatórios ou documentos administrativos dos campos de concentração, deixando claro a forma como os judeus eram encarados: números.

Daniel é marcante na sua fome, no seu cansaço vigilante e na sua dedicação ao mister que ama. O seu terror é palpável e é doloroso perceber que a sua vida vale muito pouco e que a morte é iminente e pode chegar a qualquer momento. Em redor, a sobrevivência é feroz e os carcereiros absolutamente impiedosos.

O violino de Auschwitz é um livro sobre um horror que supera a ficção. 


**** (bom)
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