18 de dezembro de 2011

A boda mexicana

Autor: Sandra Sabanero
Género: Ficção
Idioma: Português
Editora: DIFEL
Páginas: 409
Preço: € 9 (alfarrabista)
ISBN:  978-9-72-290728-6
Título original: La boda mexicana

Avaliação: **** (bom)

A Boda Mexicana é um retrato muito vívido e nítido da vida no México rural, em meados do século XX.

Durante 400 páginas, somos transportados a um país de fortes tradições e costumes profundamente enraizados, onde os papéis de cada um estão predestinados desde o nascimento. A história tem como narradora principal Esperanza Villanueva, que no dia do seu casamento, partilha recordações com a mãe, folheando um albúm de família.

Pela sua voz, somos levados a uma viagem do passado para o presente, acompanhando a evolução de mentalidades no México. Nitidamente virado para as figuras femininas da família, as evocações realizadas têm como figura central as mulheres da família Villanueva, mulheres de garra e muito força interior que experienciam a vida de forma diferente.

No meio de muito suor e lágrimas, inúmeras gravidezes e maus tratos físicos e psicológicos, estas mulheres vão experimentado uma existência mais ou menos madrasta, muitas vezes dependentes de factores alheios às próprias: o alcoolismo do marido, a rebeldia e ingratidão dos filhos, a má-língua do bairro, o pesado trabalho doméstico, traições, etc.

Com uma narrativa à flor da pele e um estilo directo, Sandra Sabanero dá vida a todas essas (e muitas mais) vozes femininas, cuja ânsia de superar todas as dificuldades e obstáculos transforma uma história aparentemente banal num retrato realista e de grande impacto emocional, onde não ficamos indiferentes à cor e alegria de um povo (mexicano) que chora com tanto sentimento como ri, que não se abate nunca e tem ganas de sonhar um pouquinho mais alto… se não por si, pelos que ama.

A descrição das festas de casamento e religiosas (e são bastantes) são tão suculentas que damos por nós a salivar por um punhado de amêndoas torradas, uma fatia de bolo de mel ou um guloso taco picante.


Um livro muito agradável. Gostei.

9 de dezembro de 2011

Pride and prejudice / Orgulho e Preconceito

Autor: Jane Austen
Género:
Clássicos da literatura

Idioma:
Inglês
Editora: Public Domain Books
Páginas: 333
Preço: gratuito
ISBN:  0978787110

Avaliação:
****** (obra prima)


Orgulho e Preconceito é um dos livros mais lidos em todo o mundo, um clássico de referência e o expoente do "romance elegante", que arrebatou milhões de leitores ao longo dos anos.

A obra mais famosa de Jane Austen é uma mistura deliciosa de romance, comédia de costumes e drama, onde não falta dinâmica e profundidade, a par de uma galeria de personagens soberbas.

Passada na Inglaterra do século 19, a história centra-se na família Bennet, cuja matriarca casou acima do seu status (numa época onde as mulheres casavam maioritariamente por dinheiro e património) e faz questão que pelo menos uma das suas cinco filhas case com um homem rico, ajudando o clã a sobreviver. As irmãs Bennet irão perder a casa que habitam quando morrer o pai (por este não ter tido um varão) e casar bem será determinante para o futuro de todas.

It is a truth universally acknowledged, that a single man in possession of a good fortune, must be in want of a wife.


O livro começa com a mudança do abastado Mr. Bingley para a vizinhança, que fica em polvorosa. Os Bennet não perdem tempo e os seus esforços dão frutos, com o jovem acabando enamorado pela irmã mais velha (e bonita) do clã, a doce e ingénua Jane. Tudo correria sobre rodas não fosse o altivo amigo de Bingley, Mr. Darcy, que desdenha tudo e todos, especialmente Elizabeth, a segunda filha mais velha da família - e também a jovem mais opinativa, perspicaz e determinada. É no núcleo destas quatro personagens e suas relações que a história se desenrola, acelerada, magnética e cheia de reviravoltas, onde o orgulho e o preconceito apimentam os contactos e extremam as atitudes.


Orgulho e Preconceito
é uma leitura divertida e apaixonante, com personagens memoráveis (o orgulhoso Mr. Darcy, o pedante Mr. Collins ou a despassarada Mrs. Bennet) e situações tão credíveis (o que há de mais real e actual que o amor e as relações humanas e familiares?) que o tornam um romance intemporal. Eu adorei-o simplesmente e fiquei fã de Austen. Corri a ver a série da BBC (1995), que é uma delícia, e já tenho a banda desenhada deste romance viciante. 

Li-o no kindle, na língua original, recheado de notas de rodapé e sinónimos, e não custou absolutamente nada; a amazon.com disponibliza alguns clássicos da literatura a custo zero
para esta plataforma.

27 de novembro de 2011

Dragon tears

Autor: Dean Koontz
Género:
Fantástico

Idioma:
Inglês
Editora: Berkley
Páginas: 416
Preço: €7
ISBN:  978-0425140031

Avaliação:
*** (mediano)

Dragon tears é o terceiro livro que leio do norte-americano Dean Koontz, um dos escritores de thriller/fantástico que mais vende nos EUA (onde ser bestseller é vender milhões de livros e receber também milhões em royalties).

Depois do óptimo Intensidade e do mediano The Door to December (ambos thrillers psicológicos), Dragon tears fala de um jovem com poderes sobre-humanos, poderes esses que usa para atormentar e destruir cidadãos indefesos, nomeadamente sem-abrigo e vagabundos, pessoas esquecidas e invisíveis na sociedade, com quem ninguém se preocupa e que o próprio considera descartáveis.

São estes excluídos as cobaias deste «deus» sem escrúpulos, que aumenta em poder de dia para dia, almejando dominar toda a raça humana. A salvação da humanidade reside, então, em dois despreocupados mas espirituosos e carismáticos detectives da polícia, que tropeçam no vilão de serviço por coincidência e acabam por salvar o mundo.

A primeira metade do livro é viciante, mas o desenrolar da história e o final são bastante trôpegos e previsíveis, o que desilude bastante. Dá a sensação de que o autor tinha demasiadas ideias mas a maior parte foram pouco afloradas, sem espaço para desenvolvimento, o que resulta em personagens superficiais e situações batidas.

Apesar de não um ser um grande livro, agradará aos fãs do suspense.


18 de novembro de 2011

O monte dos vendavais

Autor: Emily Brontë
Género:
Clássicos da literatura

Idioma:
Português
Editora: Editorial Presença
Colecção: Obras literárias escolhidas

Páginas: 320
Preço: € 15

ISBN:  978-9-72-234247-6
Título original: Wuthering heights

Avaliação:
****** (obra prima)

O monte dos vendavais é um clássico de referência, o único romance de Emily Brontë, publicado no século XIX sob pseudónimo.

É um livro viciante, com páginas repletas de emoção e sentimento e personagens fortíssimas, de uma intensidade que há muito não tinha o prazer de encontrar. Os protagonistas são de uma crueza e beleza avassaladoras, apesar de serem claramente anti-heróis.

Cathy Earnshaw é uma jovem de boas famílias, uma das herdeiras de um senhor rural, dono do Monte dos Vendavais, uma propriedade de ventos glaciais, pântanos e densos arvoredos. Longe de encaixar nos padrões femininos da época, Cathy tem um temperamento violento e propenso a crises de histeria, oculto sob uma beleza magnética.

Uma noite, o pai de Cathy traz consigo um órfão, um ciganito ranhoso e de olhos incandescentes de nome Heathcliff, e apresenta-o à filha. O par, que partilha uma personalidade turbulenta, depressa
se torna inseparável. O amor nasce e fortalece-se à medida que passam de miúdos a jovens adultos, mas mantendo sempre contornos egoístas e caprichosos. Quando Cathy confessa que não poderá casar com o seu amigo e amor de infância pois isso seria uma despromoção em termos sociais, o jovem desaparece sem rasto.

Quando regressa quatro anos depois, próspero, arrogante e amargo, encontra a sua amada Cathy casada com um homem que incorpora tudo o que Heathcliff despreza: posição social, mesuras e abastança aristocrática. Rancoroso, quer castigar todos os que o desdenharam e fizeram sofrer pela sua origem humilde.

Esta vingança trará negras consequências, num romance pontuado de actos insanos e maldosos, tendo como mote o amor. O livro tem passagens verdadeiramente tocantes e belas, justificando o epíteto de uma das mais belas histórias de amor de todos os tempos.

«O meu amor pelo Linton é como a folhagem dos bosques: transformar-se-á com o tempo, sei-o bem, como as árvores se transformam com o Inverno. Mas o meu amor por Heathcliff é como as penedias que nos sustentam: podem não ser um deleite para os olhos, mas são imprescindíveis. Nelly, eu sou o Heathcliff. Ele está sempre, sempre, no meu pensamento. Não por prazer mas como parte de mim, como eu própria.
»

Um excerto do livro está disponível na internet.

10 de novembro de 2011

Agatha Christie's Hercule Poirot

Autor: Anne Hart
Género:
Não ficção

Idioma: Inglês
Editora: Harpercollins
Páginas: 352
Preço: € 11
ISBN: 978-0006499572

Avaliação:
**** (bom)

Sou uma fã confessa da dama do crime, Agatha Christie. Parte da minha adolescência foi preenchida com os livros que ela escreveu, inclusive dois sob o pseudónimo de Mary Westmacott. A biblioteca municipal tinha-os em abundância e eu não deixei escapar nenhum.

Sempre admirei o seu génio e astúcia, e se houve alguém capaz de cometer um crime perfeito, terá sido ela. Das personagens saídas da pena de Miss Agatha, as minhas preferidas são os perspicazes Hercule Poirot e Miss Marple, um belga excêntrico com uma paixão assolapada por licores e sapatos de verniz e uma octogenária de olhos azuis e expressão ternurenta que fez da cusquice uma ferramenta ao serviço da descoberta da verdade.

Este livro de Anne Hart, uma inglesa que partilha a paixão por estes dois personagens com leitores de todo o mundo, recria a vida, hábitos e costumes de Hercule Poirot (a autora escreveu um semelhante acerca de Miss Marple a que ainda não deitei a unha), recolhendo fragmentos e citações do próprio, do fiel Capitão Hastings ou de outras figuras que surgiram nos casos onde Poirot interviu, de forma a fazer uma biografia deste dandy dos primeiros meados do século XX.

«Sou, muito provavelmente, o melhor detective do mundo» e outras frases modestas saíam amiúde da boca de Poirot. Pequeno apenas em tamanho, este detective reformado da polícia belga deixava-me completamente vidrada com as suas deduções inteligentíssimas – muitas vezes resolvia os casos sentado na sua sala de chá a bebericar um cacau, depois de analisar factos e depoimentos. No entanto, sempre o preferi em campo, quando se deslocava em férias ou passeios e se via envolvidos em envenenamentos, apunhalamentos e outros derivados.

Era engraçado ver os emproados ingleses que encaravam, a priori, o cabeça de ovo como um homenzinho excêntrico ridículo e insignificante a evitar para, no final do livro, acabarem de queixada no chão, quando o hercúleo investigador reconstituía o crime ponto por ponto. Delicioso.


Em Agatha Christie's Hercule Poirot
, houve um trabalho de pesquisa intenso (a autora demorou dois anos a recolher dados), um esquadrinhar de todas as obras que permitiu reunir referências e diálogos de forma a dar a Poirot um passado, gostos e situações quotidianas.

É um livro interessante para um fã assumido de Hercule Poirot. Não tem nenhum mistério nem nenhuma trama, e nada mais é que uma simples e bem organizada biografia do detective mais famoso do mundo (pessoalmente, prefiro-o ao Sherlock).

Recomendo aos fãs de Poirot, pois será certamente uma leitura agradável, com inúmeras menções a casos resolvidos, uma homenagem a umas das personagens mais queridas da literatura policial, que reúne milhões de fãs em todo o mundo.


NOTA: Sei que este livro teve uma edição em Portugal, mas como não consegui arranjar nenhuma, tive de o adquirir no texto original.

4 de novembro de 2011

Cruz de ossos



Autor: Patricia Briggs
Género:
Fantasia Urbana
 

Idioma: Português
Editora: Saída de Emergência
Colecção: Bang!

Páginas: 288
Preço: € 16
ISBN:  978-9-89-637887-7
Título original: Bone crossed

Avaliação:
***** (muito bom)

Cruz de ossos é o volume 4 da série Mercedes Thompson, depois de O Apelo da lua, Vínculo de Sangue e Beijo do Ferro.

Mercy Thompson não é uma mulher comum, longe disso. Mecânica de profissão, é uma caminhante (walker), podendo assumir a forma de um coiote. Tem ainda um relacionamento com Adam, o alfa do bando local de lobisomens, divide a casa com outro lobisomem, Samuel, e tem amigos entre os vampiros e os seres feéricos da zona. A sua vida é cheia de sobressaltos e aventuras... tal qual ela gosta.
 
Neste livro, porém, Mercy vê-se a braços com algumas dificuldades que a sua desenvoltura habitual não consegue ultrapassar rapidamente. A atravessar um período pós-traumático, vê a sua garagem vandalizada ao mesmo tempo que descobre que a rainha dos vampiros, Marsilia, quer vê-la morta, depois da mecânica ter exterminado um dos seus favoritos.

A acção continua emocionante, o tom é bem-humorado. Mercy é uma heroína despachada e corajosa, e a história é contada em bom ritmo e com alguma profundidade, não deixando pontas soltas. Mas é, acima de tudo, bom entretenimento e a autora está a construir uma série forte e apetecível.

Em jeito de aparte, finalmente que temos uma capa catita, ao contrário das restantes, mais fracas (a do primeiro livro, então, é de fugir). Um pormenor menor
, sem dúvida, numa série que vou continuar a seguir.

Um excerto do livro está disponível no site da editora.

22 de outubro de 2011

Beijo do ferro



Autor: Patricia Briggs
Género:
Fantasia Urbana
 

Idioma: Português
Editora: Saída de Emergência
Colecção: Bang!

Páginas: 304
Preço: € 16
ISBN:  978-9-89-637334-4
Título original: Iron kissed

Avaliação:
**** (bom)

Beijo do ferro é o volume 3 da série Mercedes Thompson, depois de O Apelo da lua e Vínculo de Sangue.

Mercy é uma mulher independente e corajosa, que divide o tempo entre a sua oficina de mecânica e os amigos. De descendência nativo-americana e traços índios, é uma caminhante (walker), podendo assumir a forma de um coiote
.
 

Nas Tri-cidades, onde se desenrola a acção, vive uma amálgama de espécies: humanos, lobisomens, seres feéricos, vampiros. Os lobisomens deram a conhecer a sua existência ao mundo (os seres feéricos já tinham saído do armário anos antes) e os vampiros continuam na obscuridade.
 

O 1.º livro da série focou-se no universo dos lobisomens, o 2.º no dos vampiros, e este último desvenda mais sobre os seres feéricos, que vivem numa reserva. Mercy tem de ilibar o seu mentor, Zee, um ser feérico acusado de matar um humano que trabalhava na reserva, com todos os riscos que isso acarreta (e é bastante arriscado).
 

É o começo de mais uma aventura, com o assassino a ser revelado perto do fim, numa sucessão de parágrafos electrizante. A caminhante conta com a ajuda dos lobisomens, liderados por Adam, por quem se sente atraída. Porém, Mercy foi criada por lobisomens e está consciente que são uma espécie dominadora, habituada a sobreviver a todo o custo, e não quer abdicar da sua independência.

O livro explora temas mais maduros e a protagonista é bastante mais desenvolvida, passando por situações traumáticas, crescendo bastante como personagem (olhamos para Mercy de forma diferente quando o livro acaba).

A acção continua emocionante, o tom é bem-humorado. Mercy é despachada e decidida, e gere com habilidade as suas relações com as várias criaturas sobrenaturais
que existem na sua vida. É uma série que vou continuar a ler, a leitura é bastante divertida e os livros estão a ficar cada vez melhores, pelo que estou com expectativas elevadas em relação ao quarto volume.

Um excerto do livro está disponível no site da editora. Boa leitura.

16 de outubro de 2011

The Store

Autor: Bentley Little
Género:
Terror

Idioma:
Inglês
Editora: Signet
Páginas: 432
Preço: € 8
ISBN:  978-0451192196

Avaliação:
***** (muito bom)

The Store é o primeiro livro que leio de Bentley Little e fiquei com duas certezas: vou ler os restantes dele e é um autor a recomendar. Vencedor do Bram Stoker Award, Bentley Little tem um ritmo narrativo hipnótico.

A história é sobre uma cadeia de lojas, intitulada The Store, que vai abrir um dos seus estabelecimentos em Juniper, uma pequena cidade no Arizona. Esta loja é gigantesca e vende tudo, desde electrodomésticos a mercearias, objectos de lazer, artigos de jardinagem, tudo o que se lembrem. Tudo o que as pessoas precisam ou querem está disponível n'A Loja.

Bill Davis vive em Juniper e trabalha em casa; desde o início que acompanha a chegada da mega-empresa, a construção da loja, a forma como vai esmagando o comércio tradicional e violando as leis de concorrência.
O poder autárquico é facilmente corrompido e comprado, rendendo-se ao poderio económico
da companhia. A partir daí vamos conhecendo as verdadeiras intenções da abertura da loja em Juniper, as estranhas condições de trabalho a que os trabalhadores d'A Loja estão sujeitos e o clima de medo e repressão que se vai apoderando da cidade.

Há resistentes à forma como as coisas de desenrolam, mas uma a uma, as vozes contra A Loja vão sendo silenciadas, instalando-se um cenário demoníaco (com várias pitadas de terror), onde o capitalismo e o totalitarismo dominam a comunidade e ninguém confia em ninguém.

As personagens de The Store são bastante reais e têm uma voz própria. A narrativa tem um bom ritmo e a história é inteligente com várias surpresas, fazendo a leitura das mais de 400 páginas viciante.

Recomendadíssimo.

11 de outubro de 2011

Trevas satânicas

Autor: Marion Zimmer Bradley
Género:
Fantástico

Idioma: Português
Editora: Difel
Páginas: 224
Preço: € 14
ISBN:  978-9-72-290632-6
Título original: Dark satanic

Avaliação:
** (fraco)


Trevas Satânicas foi uma das primeiras obras de Marion Zimmer Bradley, falecida em 1999. Esta autora editou livros de diversos géneros, mas as suas obras de referência encontram-se na fantasia (As Brumas de Avalon) e na ficção científica (a série Darkover).

Este título integra-se numa série de livros escritos pela autora com nuances góticas, abordando o tema das seitas secretas e do satanismo, sendo uma espécie de prequela para A Herdeira, já analisado aqui no blog.

Jamie Melford é editor-adjunto numa editora, a Blackock Books, e vive com a mãe e a mulher, Bárbara, em Nova Iorque, sem sobressaltos. Até ao dia em que um dos seus autores mais vendidos, Jock Cannon, lhe entra pelo gabinete adentro, seriamente perturbado.

Jock tem sido ameaçado para não publicar o seu mais recente livro, uma obra sobre bruxaria. Jamie desvaloriza a situação e leva avante a publicação. O autor aparece morto pouco tempo depois e o casal Melford começa a receber ameaças e a ver um quotidiano outrora pacato ser revirado.

Apesar de ter gostado minimamente do livro (a autora escreve bem), não posso negar que foi uma leitura decepcionante. A história é bastante previsível e tem um fim morno.
Além disso, as personagens são demasiado estereotipadas, o que surpreende, uma vez que Marion Zimmer Bradley foi uma defensora do feminismo e incluiu-o amiúde no seu trabalho.

Fraquinho.

NOTA: Como, infelizmente, a Difel fechou, poderão encontrar este livro em alfarrabistas ou para requisição nas bibliotecas municipais.

7 de outubro de 2011

A Condessa



Autor: Rebecca Johns
Género:
Ficção

Idioma: Português
Editora: Edições Asa
Páginas: 336
Preço: € 16
ISBN:  978-9-89-231596-6
Título original: The Countess: a novel of Elizabeth Bathory


Avaliação: **** (bom)

Erzébet Báthory nasceu nobre, rica e bela, filha de aristocratas húngaros. Acabou prisioneira na torre do seu castelo, abandonada para morrer, sem família nem amigos. Sobre si pendiam acusações macabras: teria morto centenas de jovens, vítimas de espancamento, fome ou ambas, por lhe terem desagradado.

A história é contada na 1.ª pessoa, com a aristocrata a relatar a sua vida, desde a infância até às circunstâncias que levaram ao seu encarceramento, sempre num tom intimista. Apesar de algumas nuances góticas e da frase na capa (Bathory é considerada a primeira assassina em série da História), os relatos de violência são poucos e ligeiramente aflorados, além de que a autora escolheu não usar muito do folclore que envolve a lenda da Condessa Sangrenta.


Bastante ricas são as descrições da vida na Hungria nos séculos 16 e 17, que permite ao leitor perceber como viviam e se entretinham no ócio os nobres; quanto ao povo, já se sabe: trabalho, privações, sacrifício. O livro tem um bom ritmo, o retrato psicológico da condessa é muito subtil, evitando a diabolização fácil
mas deixando adivinhar alguns traços negativos, como a desconsideração das pessoas pela sua classe social e um extremo egoísmo.

Para aqueles que possam ser atraídos por promessas de "vampiragem" e banhos de sangue, não vão levar nada. A Condessa é a história de uma mulher forte e autónoma, prometida em casamento aos 11 anos, que conseguiu aumentar a sua riqueza e acolheu dezenas de jovens na sua casa, com a promessa de trabalho honesto, dote e casamento. Ajudou algumas, mas algures pelo caminho perdeu-se, assustada com o avançar da idade e desconfiada das intenções dos que a rodeavam.

Esperava mais do livro, assim como o aprofundar de algumas passagens (o casamento com Ferenc e a relação com Anna Darvulia, a sua criada mais fiel e querida), mas a autora mantém um tom de romance histórico até ao fim, numa escrita fluida e pouco negra, justamente esperada tendo em conta o tema.

3 de outubro de 2011

Rainhas trágicas

Autor: Juliette Benzoni
Género:
Biografia

Idioma: Português
Editora: Edições 70
Páginas: 325
Preço: € 19
ISBN:  978-9-72-441222-1
Título original: Reines tragiques

Avaliação: **** (bom)

Julliete Benzoni é uma autora bastante publicada em Portugal, com várias sagas e trilogias disponíveis no mercado, das quais tenho uma, a trilogia Segredo de Estado.

Longe de ser uma má autora, os seus livros têm um tom previsível e cor-de-rosa, o que é bom se for apenas uma obra ficcional e não tão bom se tivermos em conta que são romances referenciados como históricos.

Isso não me impediu de comprar Rainhas Trágicas, que alterna breves biografias de figuras conhecidas com a de figuras mais obscuras, contadas em tom novelesco. Em comum, estas mulheres têm o facto de terem sido rainhas (de título oficial ou de alcova), terem sido detentoras de grande beleza e o seu final ter sido trágico (e até prematuro).

Nomes famosos como Catarina Howard (a 5ª mulher de Henrique VIII), Maria Tudor (a Católica), Agripina (mãe do odiado Nero) e Leonor de Aquitânia (mãe do mítico Ricardo Coração de Leão) são apenas quatro das muitas mulheres cuja vida nos é relatada, sendo o leitor transportado para cortes, leitos e multidões em fúria ou em aclamação, desde o Antigo Egipto ao início do século 20.

Apesar da autora pautar por uma escrita leve, o livro beneficiou disso, aligeirando um volume com tendência a ser maçudo, tornando-o apetecível, cujas trezentas e poucas páginas se lêem ligeiras. Recomendo.

Segue o índice, com as 18 soberanas, que vêm a sua vida relatada numa série de feitos heróicos «que conjuga amor, ambição e ódio, a par do crime, da loucura e da razão de Estado.»

I – Nitócris, a Cinderela do Nilo.
II – Lu, a camponesa de Kiang-Su.
III – Agripina, uma cliente de Locusta.
IV – Teofania, a Imperatriz das tabernas.
V – Fredegunda contra Brunilde, as rainhas rivais.
VI – Leonor de Aquitânia, duas vezes rainha.
VII – Isabel de Angolema, a rainha vassala.
VIII – Margarida, Branca e Joana de Borgonha, as rainhas malditas.
IX – Isabel, a loba de França.
X – Branca de Bourbon, a rainha assassinada.
XI – Catarina Cornaro, rainha de Chipre.
XII – Joana, a Louca.
XIII – Catarina Howard, a quinta vítima de Henrique VIII.
XIV – Maria Tudor, a «Saguinária».
XV – Cristina da Suécia, a assassina de Fontainbleau.
XVI – Carolina Matilde da Dinamarca, a prisioneira de Kroenberg.
XVII – Maria Josefina de Sabóia, uma rainha francesa desconhecida.
XVIII – Draga, rainha da Sérvia: a vítima da Mão Negra.

25 de setembro de 2011

Puppies for dummies



Autor: Sarah Hodgson
Género:
Utilidades

Idioma: Inglês
Editora: John Wiley & Sons
Páginas: 392
Preço: € 10
ISBN:  978-0470037171

Avaliação:
**** (bom)

Puppies for Dummies é mais um título útil da série "X para tótós"; em Portugal pouco mais de uma dezena de títulos traduzidos estão disponíveis, mas em inglês são cerca de dois mil títulos, com temas tão diversos como informática, música, bem-estar, etc.

Dividido em capítulos como saúde, alimentação, treino e cuidados, Sarah Hodgson tenta consciencializar o leitor da responsabilidade de ter um cão, alertando para o trabalho, paciência e investimento necessários.


Os primeiros capítulos dirigem-se àqueles que, ainda não tendo escolhido um cão, devem ponderar variáveis como a personalidade, tamanho e características das raças, assim como o dilema de comprar ou acolher um animal de um canil. Os argumentos são sensatos e poderão desencorajar aqueles que não pensaram em todos os aspectos de arranjar um melhor amigo do homem (a autora fornece tabelas informativas sobre as raças disponíveis e qual poderá ser a melhor raça para cada um/núcleo familiar).


Os restantes três quartos do livro são práticos e prendem-se com a componente prática de ter um cão: como estabelecer regras, como ensinar-lhe os básicos, que alimentação é melhor. Há quadros e imagens explicativas q.b. e todo o livro é bastante fácil de manipular, sendo que a leitura não precisa de ser seguida (eu fui lendo o livro à medida que as situações aconteciam e eu precisava de ajuda sem nunca perder o fio à meada).

Apesar de haver diversas páginas na internet e centenas de vídeos explicativos sobre cães, achei uma mais-valia ter um volume à mão, escrito por uma profissional, quando precisasse de consultar um assunto específico relativo ao canito.

21 de setembro de 2011

Writers workshop of horror



Autor: Vários
Género:
Escrita criativa

Idioma: Inglês
Editora: Woodland Press
Páginas: 262
Preço: € 14
ISBN:  978-0982493915

Avaliação:
***** (muito bom)

Writers workshop of horror é uma compilação de textos dos melhores (e mais premiados) autores do terror e do fantástico, direccionado a quem quer começar a escrever dentro do género ou para quem já escreve e procura dicas extra.

Dividido por temas (personagens, diálogos, ritmo, erros a evitar, experiências pessoais), inclui textos de Clive Barker, Ramsey Campbell, Tom Piccirilli, Jeff Strand, Mort Castle, entre muitos outros, com inúmeras referências a H.P. Lovecraft, Stephen King e outros autores basilares da dark fiction.


Os textos alternam entre o tom humorístico e bem disposto (a maioria) e o professoral aprendam-com-os-meus-erros (a minoria), o que torna a leitura extremamente agradável e não descura nada a utilidade das dicas fornecidas.


Para quem não tem tempo, paciência, perfil ou euros para investir num curso de escrita criativa, mas tem o bichinho da escrita, é um excelente livro da especialidade, ideal como motivação. Quando acabamos, sentimos a ânsia de escrever e dar voz ao que nos passa pela mentezinha perturbada.


Seguem títulos de alguns capítulos e respectivos autores, para despertar a gula:

Tom Piccirilli - Exploring personal themes
Ramsey Campbell - The height of fear
Brian Yount - 10 submission flaws that drive editors nuts
Michael A. Arnzen - Scene and structure in horror


Boas leituras (e boa escrita).

17 de setembro de 2011

Queimada viva

Autor: Souad
Género:
Biografia

Idioma: Português
Editora: Edições ASA
Páginas: 192
Preço: € 11
ISBN:  978-9-72-4136686-8
Título original: Burned alive



Avaliação: **** (bom)

Queimada viva é o testemunho de uma sobrevivente que, ao contrário de muitas mulheres na sua situação, conseguiu escapar à morte pelo fogo, encomendada pelos próprios pais.

É uma história de coragem mas também uma minúscula gota no oceano, pois, de entre milhares com a mesma sorte, conseguiu escapar ao Inferno e recomeçar uma vida.

Souad é uma palestina nascida numa família pobre. Não sabe nada do mundo, das pessoas que o habitam nem do que se estende para além da pequena aldeia onde reside. Pouco depois de deixar as fraldas já faz tarefas pesadas e conduz o rebanho da família. Elas e as irmãs revezam-se para fazer as refeições, tratar da lida da casa, cuidar dos irmãos mais pequenos e assegurar o cumprimento das tarefas de manufactura para alimentar o pequeno negócio da família.

Para o pai, Souad vale menos do que um animal. É espancada diariamente, não tem direito a conforto, leva uma vida escrava sem saber que há outras existências para além daquela que tem.

«Se o teu pai te disser “não saias deste canto a vida inteira”, tu ficas nesse canto toda a vida. Se o teu pai te puser uma azeitona no prato e te disser “hoje não comes mais nada”, tu não comes mais nada. (…) Essa forma de não-existência é cultivada ininterruptamente.»
À semelhança de muitas outras jovens, sonha em casar, na ilusão que terá uma vida melhor, quando na verdade só muda de carcereiro, porque o marido segue a mesma cartilha de abuso e violência.

«É uma coisa curiosa o destino das mulheres árabes, pelo menos na minha aldeia. Aceitam-no naturalmente. Nem nos passa pela cabeça revoltarmo-nos. (…) Apenas porque não temos outro sítio onde viver senão em casa do pai ou do marido. Viver sozinha é inconcebível.»

Saída da adolescência, Souad vive uma paixão pueril por um vizinho, a quem espia e com quem fantasia vir a casar. O rapaz apercebe-se e, entre encontros, têm relações antes do casamento. Souad engravida e quando o facto se torna visível, a sua família é desonrada.

Para "lavar" a honra, são os próprios pais a encomendar a morte da filha, pedindo a um cunhado que faça o previsto e habitual naquele caso: Souad é regada com gasolina e ateada com fogo. Tem uma gravidez em estado avançado.

Milagrosamente, mãe e bebé conseguem sobreviver, mas não sem antes conhecer os horrores de uma sociedade sem afecto nem carinho para com as suas mulheres: no hospital é deixada a um canto, com a carne queimada a apodrecer e sem os cuidados mínimos; a sua própria mãe tenta envenená-la.

Vale-lhe a SURGIR, uma ONG que a tira do país e lhe dá uma vida nova, mas sempre no maior secretismo, pois Souad é um alvo a abater pelos seus familiares, que não poderão erguer a cabeça enquanto a pecadora estiver viva.

A nossa narradora já é uma mulher de meia-idade quando escreve o livro e foram precisos anos para ter direito a um pouco de felicidade. Vive incógnita e com outro nome, sempre com medo que algum membro da família venha cobrar a dívida que ficou por saldar. Ficaram ainda as inúmeras cicatrizes físicas e psicológicas, impossíveis de sarar.

No final, ecoa o grito de revolta: todos os anos, milhares de mulheres são assassinadas, sem contar os imensos desaparecimentos e “suicídios” reportados que não são conotados como «crimes de honra», com os autores (todos homens) a serem considerados heróis nas suas aldeias, sem qualquer tipo de punição além de uma advertência verbal pelas autoridades do sítio.

A autora espera poder ajudar a parar este massacre com o seu testemunho e apela a quem de direito. Aconselho Queimada viva, embora não seja uma leitura de entretenimento. É um caso real e merece o respeito devido pela civilização ocidental, que sabe muito pouco destas barbaridades.

13 de setembro de 2011

Equador

Autor: Miguel Sousa Tavares
Género: Romance Histórico
Idioma: Português
Editora: Oficina do Livro
Páginas: 528
Preço: € 25
ISBN:  978-9-89-555013-5

Avaliação:
*****
(muito bom)


Equador é um livro que não perde magia na releitura. Ao longo de mais de 500 páginas, Miguel Sousa Tavares (MST) delineia com mestria a história de Luís Bernardo Valença, um homem forte, de mente e ideais românticos.

A acção inicia-se em clima de decadência monárquica, em 1905, num Portugal muito rural.

Luís Bernardo é um bon vivant, amigo do seu conhaque e charuto habano, galante e provador de belas senhoras, fiel ao seu amigo e aborrecido de morte com a existência que leva. Como qualquer pessoa aventureira que sonha com algo mais do que a monotonia que a instabilidade financeira e moral providenciam, ambiciona mais da vida do que o que tem, apesar de não saber o que será a “tal coisa” que o fará sentir-se vivo.

Até que, fruto das suas declarações em público e artigos de opinião na imprensa – é um abolicionista convicto -, é convidado para o cargo de governador de S. Tomé e Príncipe pelo próprio El-Rei, a fim de se certificar que a mão-de-obra nas ilhas não é escrava e que as condições de trabalho nas roças são tomenses nada têm de esclavagista.

A sua missão primordial é provar aos Ingleses que os negros não são explorados e que o cacau que exportam é resultado de uma exploração digna e correcta dos recursos humanos. Mas tal feito não será fácil e Luís Bernardo vê-se a braços com uma tarefa hérculea, sem saber em quem confiar.

Não quero revelar muito mais da história. A descoberta de S. Tomé como um paraíso na terra orientado por demónios capitalistas e sem escrúpulos, com quem o nosso herói terá que se bater, é arrebatadora e a leitura torna-se viciante. É desgastante e emocionante seguir o percurso de Luís Bernardo, assistir aos seus duelos com os roceiros e testemunhar os salamaleques políticos.

Há mestria na forma como a autor traça o fio da acção e suspende o leitor no final de cada capítulo, ao longo de um volume considerável que vemos decrescer sem darmos pela passagem do tempo. Tornamo-nos reféns da beleza das paisagens e da intensidade com que o protagonista vive e respira o que o rodeia.

O final surpreendeu-me mas afigura-se-me o único possível de fechar o romance com chave d’ouro e sem hipótese de desiludir o leitor, depois de tantas dezenas de páginas passadas.
«O que não havia em Portugal era uma tradição de cidadania, um desejo de liberdade, um gosto de pensar e agir pela própria cabeça: o desgraçado do trabalhador do campo dizia e fazia o que o patrão lhe mandava, este repetia o que o cacique local lhe transmitia e este, por sua vez, prestava contas e vassalagem aos próceres do partido em Lisboa. Podia mexer-se no cume da pirâmide, que tudo o resto, até à base, permaneceria inamovível.»

6 de setembro de 2011

Brancos Estúpidos - e outras desculpas esfarrapadas para o estado da nação



Autor: Michael Moore
Género:
Humor
Idioma: Português
Editora: Temas e Debates
Páginas: 304
Preço: € 17
ISBN:  978-9-72-759626-3
Título original: Stupid white men... and other sorry excuses for the state of the nation!

Avaliação: **** (bom)

Brancos Estúpidos . e outras desculpas esfarrapadas para o estado da nação é um livro que a brincar vai dizendo umas verdades. É uma crítica assumida em tom de paródia às administrações americanas pré-Obama: as de Bush filho e Clinton.

Foi um best-seller em 6 países europeus, foi traduzido em 15 línguas e fez grande sucesso nos EUA, com sucessivas edições. O autor é Michael Moore, escritor e cineasta controverso, famoso por não ter papas na língua.

Aqui, Moore aponta baterias a um sem número de grupos, que critica sem descanso. Começando pelo plano político, onde nos explica detalhadamente os meandros da política norte-americana, inclusive a fraude das eleições que puseram W. Bush no poder, ou «o ladrão-mor e o usurpador da Sala Oval», como é apelidado pelo autor, disserta ainda sobre as políticas internas e externas mais desastrosas dos últimos anos, abrangendo as medidas sociais e económicas.

«Deve ter sido a melhor coisa a que assisti na cidade de Washington – um pretendente ao trono americano obrigado a meter o rabo entre as pernas e a fugir de milhares de cidadãos americanos armados apenas com a verdade e os ingredientes para uma boa omeleta.»
(escreve o autor acerca do episódio em que W. Bush, depois de “vencer” as eleições se dirigia ao Capitólio e era vaiado e o seu carro bombardeado com ovos por um grupo americanos indignados.)

George W. Bush é o “presidente”, porque Moore não lhe reconhece a legitimidade, e é chamado de tudo, desde palerma a incompetente, com o seu cadastro dissecado: a detenção por conduzir bêbado, as experiências com marijuana em adolescente, o facto de nunca ter tido de trabalhar ou de se esforçar para obter fosse o que fosse, abrigado pelo apelido que ostenta, a sua dependência alcoólica. Moore faz ainda uma lista das decisões desastrosas de W., que cortou financiamentos e subsídios a escolas e políticas sociais em curso, projectos-lei ambientais, cuidados médicos e pensões, decisões que ainda hoje se fazem sentir.

Através do ritmo fluído e despachado da narrativa, constata-se que os states não são o paraíso que se julga, passando os seus habitantes por dificuldades idênticas às nossas: incompetência judicial, as penas pequenas dos criminosos, os salários baixos, as políticas educacionais e a fraca assistência aos carenciados.

Pela “pena” de Moore, analisei melhor a política norte-americana, conheci as fraquezas das medidas de Clinton (um presidente que não fez grande coisa aparte o contributo inquestionável em questões internacionais) e alguns maus passes feitos por Bush Pai e por Reagan.

O autor chama os americanos de idiotas por terem dedicado em exclusivo a sua atenção, nos anos 90, à nódoa de esperma num vestido azul de uma certa estagiária e aos encontros amorosos de Hugh Grant com uma trabalhadora do sexo quando havia tanta coisa para questionar e debater, e expõe as debilidades de uma nação que é tida como «a mais estúpida do Mundo».

Numa crítica cerrada aos poderosos e à América corporativista, alguns capítulos de
Brancos Estúpidos . e outras desculpas esfarrapadas para o estado da nação dedicam-se a enumerar o que está errado na sociedade americana, com especial destaque para o racismo e a forma como a mentalidade reinante é limitada e centrada no seu próprio umbigo. Todas as considerações de Moore são escritas em tom provocatório mas camufladas de humor, o que, creio, foi feito para "safar" o escritor de processos judiciais sérios.

Uma leitura diferente, não-ficcional, que aumentou o meu conhecimento em muitas áreas. Vale o que vale pois não é imparcial, mas gosto de ler perspectivas diferentes sobre os assuntos e esta é divertida.

31 de agosto de 2011

O jardim de cimento



Autor: Ian McEwan
Género:
Literatura

Idioma: Português
Editora: Gradiva

Páginas: 160
Preço: € 11
ISBN:  978-9-72-6620624-4
Título original: The cement garden

Avaliação:
****
(bom)


Tomei conhecimento deste livro através de uma lista de leituras recomendadas de Stephen King, no seu Escrever - memórias de um ofício. Já tinha ouvido falar deste autor (tem alguns livros adaptados ao cinema, como Expiação) mas ainda não tinha lido nada dele.

Este livro conta-nos a história de quatro menores deixados à sua mercê. Julie, Jack, Sue e Tom vivem num bairro degradado num subúrbio britânico, onde a única casa habitada é a sua, tendo as restantes sido demolidas ou abandonadas.

Num curto espaço de tempo perdem os pais. A mãe, antes de morrer, diz aos filhos mais velhos, Julie e Jack, que lhes deixará dinheiro suficiente para manter a casa e lhes assegurar o sustento. Receosos de serem separados e enviados para orfanatos, os adolescentes decidem esconder a morte da mãe e fecham o corpo num baú coberto de cimento, assumindo a gestão da família.

Com o passar do tempo, sem pais e sem supervisão adulta, as regras e a disciplina desaparecem. Cada um faz o que quer, muitas vezes indiferente ao conforto e bem-estar dos outros. Sue refugia-se nos livros, Tom age como um bebé caprichoso, Jack afunda-se num drama existencial e Julie tenta crescer demasiado depressa, encetando um namoro com um rapaz alguns anos mais velho. É neste redemoinho de emoções, de desejos calados e angústias abafadas em que o leitor se vê envolvido.

É um livro interessante que se lê em poucos dias. São 160 páginas que folheamos com facilidade, apesar de o conteúdo ser de lenta digestão.

Este livro foi também adaptado ao cinema em 1993, com críticas favoráveis. 

26 de agosto de 2011

Why we suck - a feel good guide to staying fat, loud, lazy and stupid



Autor: Denis Leary
Género:
Humor

Idioma: Inglês
Editora: Plume Books
Páginas: 256
Preço: € 5
ISBN:  978-0452295643

Avaliação:
*** (mediano)

Why we suck - a feel good guide to staying fat, loud, lazy and stupid é um livro que aspira a ser sarcástico, rude e ofensivo. E é-o efectivamente, mas olhando para o autor não é de admirar.

Denis Leary é um comediante e actor que se distingue pelo humor ácido e agressivo. Fez nome através do stand-up mas a fama mundial chegou com a televisão, onde é argumentista e protagonista da série Rescue Me (Socorro em Portugal).

Neste livro, Leary mistura histórias de família com opiniões e filosofias de vida sobre inúmeros assuntos: a educação dos filhos, a fama em Hollywood, a obsessão com a imagem nos dias de hoje, os presidentes americanos recentes, o casamento homossexual, etc.


Há capitulos bastante engraçados e irreverentes q.b., nomeadamente os primeiros (gostei bastante dos capítulos sobre a Oprah, sobre gatos e sobre a auto-medicação), mas à medida que vamos lendo, comecei a ter a sensação que Leary estava a encher chouriços, com algum engonhanço, como menções repetidas a episódios familiares e a pontos de vista.

Politicamente incorrecto e corrosivo, peca por se tornar entediante, talvez porque o que o autor teria para dizer poderia ser condensado em pouco mais de 150 páginas, menos 100 que as que o livro tem.
 
Fica um excerto do livro, disponibilizado pela Amazon e uma recomendação para uma leitura diferente.
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